Chutes, pressão, clareza e a Premier League

Pontos de interesse
– 82% dos chutes realizados em condições de pouca visibilidade ou saem fora do alvo ou são bloqueados
– Em comparação com a média da Premier League na temporada 2017/18, o Arsenal deu 8% menos chutes em situações de alta pressão, enquanto o Burnley deu quase 9% a mais
– Kevin De Bruyne foi responsável por 28% dos chutes de alta qualidade do Manchester City na última temporada
Na Premier League da última temporada, foram registrados 9.328 chutes a gol. Se excluirmos os pênaltis e as cobranças diretas de falta, ficamos com 8.909 chutes.
Usando os novos indicadores de pressão e clareza, que foram apresentados e discutidos pela primeira vez neste blog no início deste ano, podemos acrescentar mais contexto a essas jogadas. Vamos começar com uma breve recapitulação dos níveis desses dois indicadores, cujos dados foram coletados desde o início da temporada 2017/18.
Clareza

Como os dados aqui utilizados são referentes ao período 2017/18, as tentativas de Clarity 0 não estão incluídas.
Pressão

Qual é a proporção de chutes com pressão que resultam em gol?

Quando consideramos apenas a pressão nos chutes, observamos uma tendência interessante (embora óbvia). As chances sob alta e moderada pressão são convertidas a uma taxa de 8% e 9%, enquanto as chances sob baixa pressão são convertidas a 15%, uma taxa 3% acima do que talvez devessem ser convertidas. Se considerarmos o xG/chute dessas chances – algo que podemos interpretar como uma taxa de conversão esperada neste contexto –, podemos ver que, em média, os chutes sob baixa pressão são os de maior qualidade.
É importante ressaltar que esses critérios de qualificação não estão, no momento, integrados ao nosso modelo de gols esperados devido à limitação atual do tamanho da amostra. No entanto, a análise desses chutes dentro do quadro atual nos permite compreender melhor o impacto que esses critérios de qualificação estão tendo sobre os chutes.
Qual é a porcentagem de chutes de primeira que resultam em gol?

A tabela acima mostra que apenas 4% das finalizações com baixa clareza resultam em gol, enquanto a média de xG por finalização dessas oportunidades sugere que 5% delas deveriam resultar em gol. As finalizações com alta clareza são convertidas em gol em uma proporção 3% superior à sugerida pelo xG por finalização.
Ao comparar separadamente a clareza e a pressão, parece haver impactos evidentes nas taxas de conversão em cada um desses níveis. Embora as oportunidades com alta clareza sejam convertidas acima do xG e apresentem uma alta taxa de conversão esperada, é provável que isso se deva ao fato de serem situações de um contra um. Além disso, as oportunidades com baixa pressão também são convertidas acima do nível esperado — provavelmente porque se trata de situações de finalização fácil, o que uma análise mais aprofundada poderia confirmar.
A relação entre oportunidades de gol e pressão (Gol | xG)

Qual é a proporção de chutes diretos que acertam o alvo, erram o alvo ou são bloqueados?
Agora que vimos as diversas taxas de conversão para os diferentes tipos de jogadas, seria bom entender o impacto da clareza na capacidade do jogador de direcionar o chute para o gol.

Uma grande parte das tentativas com baixa clareza é bloqueada (42%) ou sai fora do alvo (40%), reforçando a ideia de que ter uma “visão clara do gol” deve ser uma das principais prioridades quando um jogador está decidindo se deve chutar. Há também uma tendência de aumento nos chutes no alvo: quanto maior a clareza, maior o número desses chutes que acertam o alvo.
Os chutes com nível moderado de precisão apresentam uma distribuição mais equilibrada dos resultados, tendendo ligeiramente mais a errar o alvo. As tentativas com alta precisão acertam o alvo em 61% das vezes e raramente são bloqueadas — e, quando isso acontece, geralmente se deve a uma boa recuperação de um defensor, que bloqueia o chute ou o afasta da linha.
Análise da equipe
Com essas informações em mãos, podemos agora explorar os padrões de arremesso de equipes específicas, analisando a proporção de arremessos que as equipes realizam sob diferentes níveis de pressão e visibilidade.
Para visualizar esses dados, criamos uma matriz colorida que facilita a comparação com a média da liga. O exemplo do Leicester City abaixo ajuda a ilustrar como interpretar essas visualizações.

Arsenal
Em comparação com a média da Premier League, o Arsenal realiza 8% menos chutes em situações de alta pressão e 2% mais chutes em situações de alta clareza. Pelo time do norte de Londres, Alexandre Lacazette foi quem mais chutou em situações de alta clareza (22), à frente de Aaron Ramsey (13) e Pierre-Emerick Aubameyang (12). Desses chutes que receberam assistência, Mesut Özil criou 19 das chances (17%), seguido de perto por Aaron Ramsey com 14 (13%). Mais uma vez, desses chutes que receberam assistência, apenas 13% vieram de cruzamentos (13).

Manchester City
O Manchester City cria 7% mais oportunidades sob baixa pressão e 6% mais oportunidades em situações de alta clareza – o que demonstra como seu estilo de jogo busca maximizar as situações em que o finalizador está livre. 24% de seus chutes provêm de situações de alta clareza (apenas um jogador entre o finalizador e o gol), 4% a mais do que o total do Arsenal. 85% das chances de alta clareza do Manchester City vieram de situações de jogo aberto (o que inclui contra-ataques). Kevin De Bruyne foi o principal criador de chances aqui, gerando 35 das 127 chances de alta clareza do Manchester City (28%).

Burnley
O Burnley realiza 8,8% mais chutes sob alta pressão do que a média das equipes da Premier League, o que confirma a impressão visual em relação à sua capacidade de criar oportunidades. Dessas oportunidades, pouco mais da metade surgiu de cruzamentos (51%), e 47% de todas as oportunidades criadas sob alta pressão vieram de jogadas ensaiadas. Dessas 149 chances, 50 foram criadas por Johann Berg Gudmundsson (33) e Robbie Brady (17) juntos, demonstrando a importância desses dois jogadores na criação de oportunidades. Das chances criadas por Gudmundsson e Brady, quase todas vieram de cruzamentos (26 e 14, respectivamente). O trio de ataque do Burnley, formado por Ashley Barnes, Sam Vokes e Chris Wood, foi responsável por 74 dessas chances.

Na defesa
Para entender melhor como as equipes defendem os chutes, podemos analisar a pressão exercida e a cobertura deixada em aberto pelas equipes.
Burnley
O Burnley sofreu 6,3% mais chutes em situações de baixa clareza em comparação com a média das equipes, o que destaca a tendência da equipe de Sean Dyche de se posicionar na frente do rematador. Por outro lado, a equipe não parece exercer pressão alta com tanta frequência — tendo sofrido 5,4% menos chutes em situações de alta pressão em comparação com a média da liga.
Dada a forma como o Burnley se defende — sem pressionar a bola, o que pode deixar a equipe vulnerável a jogadas do adversário que tiram um jogador de jogo —, provavelmente não é surpresa que muitas dessas chances sofridas sejam de baixa qualidade.

Brighton
O Brighton é outro time com tendência a defender em bloco baixo, o que se reflete no tipo de chutes que sofre. Sua matriz mostra um aumento significativo em relação à média do campeonato no que diz respeito aos chutes de baixa precisão sofridos.

Manchester City
O Manchester City sofreu 3% a mais de chutes em situações de baixa pressão e alta clareza — logicamente, as melhores condições para criar uma oportunidade. É provável que o aumento na proporção de chutes em situações de alta clareza e baixa pressão se deva ao fato de sua pressão ter sido neutralizada e de a equipe ter sofrido contra-ataques.

Ao avaliar conjuntamente a pressão e a clareza, uma matriz de taxas de conversão nos permite comparar com o xG/chute dos chutes em questão.
Sem dúvida, os chutes em situações de baixa pressão e alta visibilidade são as oportunidades de melhor qualidade, com uma taxa de conversão de 33%. Todas as tentativas em situações de alta visibilidade foram convertidas com taxas de dois dígitos, demonstrando a qualidade superior dessas oportunidades.
Dado esse enfoque na análise da equipe, o próximo artigo se concentrará em uma análise detalhada de jogadores específicos e de suas decisões nessas situações.








